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Biossonificação fúngica: Fazendo música com cogumelos

Os cogumelos não têm cordas vocais nem pulmões, mas de alguma forma podem fazer música. Ou melhor dizendo, podemos ouvir sua eletricidade transformada em som. Essa é a essência da biossonificação fúngica: converter as flutuações elétricas naturais dos fungos em notas musicais por meio da tecnologia MIDI.

Capa biossonificação fúngica.
A corrente fúngica: onde a biologia pulsa e a tecnologia escuta.

Nesse processo, os impulsos bioelétricos — pequenas variações na condutividade de seus tecidos ou do micélio — são traduzidos em dados digitais que controlam sintetizadores. O resultado não é uma “canção do cogumelo”, mas uma interpretação sonora de sua atividade biológica. Uma ponte entre o orgânico e o eletrônico.

Nos últimos anos, esse fenômeno conquistou as redes sociais. No TikTok e Instagram, milhões de pessoas descobriram músicos como Tarun Nayar, criador do projeto Modern Biology, conectando eletrodos a um cogumelo ostra e fazendo um sintetizador modular responder ao seu ritmo elétrico. O que começou como uma curiosidade científica tornou-se um movimento artístico global: uma nova maneira de unir ecologia, ciência e música eletrônica.

Um pouco de história: a biossinalização no século XX

Embora os cogumelos sejam as estrelas atuais, o conceito de escutar biossinais não é novo. Suas origens remontam às décadas de 1960 e 1970, com figuras como Cleve Backster, que afirmava que as plantas reagiam a pensamentos e emoções (“percepção vegetal”). Embora grande parte desses estudos careça de rigor científico moderno, estabeleceram as bases para a exploração da bioeletricidade como fonte de dados. A partir dessa curiosidade inicial, a tecnologia e a arte refinaram o processo, buscando uma colaboração mais do que uma leitura mística.

O coração do movimento: artistas e projetos-chave

Pioneiros e figuras virais

O nome mais conhecido dessa vertente é Tarun Nayar, biólogo e músico canadense. Seu projeto Modern Biology combina arte ambiental, improvisação eletrônica e biologia experimental. Nayar utiliza a energia bioelétrica de cogumelos e plantas para controlar o tom e o ritmo de seus sintetizadores, criando peças que parecem respirar junto com o micélio.

Tarun Nayar conecta eletrodos em cogumelos .
Tarun Nayar (Modern Biology) conecta eletrodos em cogumelos para capturar e sonificar seus impulsos bioelétricos. Fotografia de Michael Muita.

Outro nome importante é Noah Kalos, mais conhecido como MycoLyco. Sua abordagem afasta-se do estilo ambient e aproxima-se do trance psicodélico: batidas rítmicas e atmosferas hipnóticas geradas ao vivo com sinais elétricos de fungos vivos. Seus shows fundem performance e biotecnologia, transformando cada set em uma colaboração literal entre humano e fungo. Artistas como Jo Blankenburg, por sua vez, exploram a integração desses dados biológicos com sistemas de Inteligência Artificial, criando música generativa a partir da vida fúngica.

Integração física: quando os cogumelos tocam instrumentos

No Reino Unido, o coletivo Bionic and The Wires levou a ideia ainda mais longe. Seu sistema traduz os dados MIDI oriundos dos fungos em sinais motores que controlam braços robóticos. Esses braços tocam instrumentos físicos — teclados, percussões ou guitarras — permitindo aos cogumelos “executar” peças musicais em tempo real.

O que parecia um experimento excêntrico transformou-se em uma experiência performática: o fungo como maestro invisível de uma orquestra robótica.

Instalações e explorações conceituais

O artista Eryk Salvaggio, com seu projeto Worlding, explorou a biossonificação sob uma perspectiva mais filosófica. Em uma de suas instalações, ele usou um cogumelo ostra (Pleurotus ostreatus) conectado a eletrodos enquanto iluminava-o com uma lâmpada. Minutos depois, as leituras mostraram picos de voltagem, como se o fungo “reagisse” à luz. Não era uma resposta consciente, é claro, mas sim um sinal biológico detectável — uma espécie de diálogo interespecífico traduzido em som.

Muito antes das redes sociais popularizarem essa tendência, Mileece, artista e compositora britânica, já trabalhava há mais de duas décadas na transcrição sonora dos sinais elétricos das plantas. Sua visão pioneira estabeleceu as bases para compreender a biossonificação não apenas como um experimento técnico, mas como uma linguagem poética entre espécies.

Gadgets e técnica: a tecnologia como tradutor

Os dispositivos de captura e o processo de sonificação

Hoje, qualquer pessoa curiosa pode se aventurar na biossonificação com dispositivos como PlantWave ou PlantsPlay 2, os mais populares nessa área. Ambos funcionam com eletrodos ou ganchos colocados na superfície do cogumelo ou do micélio.

Esses sensores detectam variações na condutividade elétrica, que depois são enviadas ao dispositivo e convertidas em dados MIDI. Algumas espécies, como o cogumelo ostra (Pleurotus ostreatus), são especialmente valorizadas por sua “atividade” elétrica, gerando padrões rítmicos e variações mais marcadas que as observadas em plantas.

Em essência, o fluxo técnico segue três etapas:

  1. Biossinal: O fungo produz uma variação na condutividade elétrica.
  2. Dispositivo MIDI: O equipamento (comercial ou caseiro) recebe o sinal e o traduz em dados MIDI.
  3. Sintetizador: O módulo de som lê o MIDI e o converte em áudio.
Diagrama de fluxo da biossonificação
O fungo emite o pulso, o dispositivo o transforma em linguagem digital (MIDI) e o sintetizador o converte em música audível.

O fungo gera o sinal, mas o artista escolhe o instrumento, a escala e os efeitos. É um diálogo criativo: a biologia oferece a aleatoriedade, o humano oferece o design. Dessa colaboração surgem paisagens sonoras que vão do meditativo ao inquietante, sempre únicas e irrepetíveis.

Curiosidade: os cogumelos costumam exibir flutuações mais rápidas do que as plantas, o que resulta em sequências mais dinâmicas e densas em notas.

Acessibilidade e cultura “Maker”

Além dos equipamentos comerciais como PlantWave ou PlantsPlay 2, a biossonificação floresceu dentro da cultura maker (DIY – Faça Você Mesmo). Esse movimento baseia-se no uso de microcontroladores de baixo custo, principalmente Arduino, para reproduzir e expandir as funções dos dispositivos de biodados.

Arduino, o coração do kit caseiro

A chave dessa democratização está no fato de que o sinal bioelétrico de um fungo, uma vez devidamente amplificado, é basicamente uma variação de condutividade que pode ser lida pela porta analógica de qualquer placa Arduino. Programadores, biólogos e músicos autodidatas aproveitaram isso para criar:

  • Esquemas e tutoriais abertos: Em plataformas como Reddit ou GitHub, repositórios específicos (como os Biodata Sonification Kits) oferecem o código e a lista de componentes necessários para construir circuitos de amplificação, geralmente a um custo muito menor do que o de unidades comerciais.
  • Ciência cidadã: Isso transformou a biossonificação em um exercício de ciência cidadã, permitindo que qualquer pessoa estude as respostas bioelétricas de seus próprios cultivos de fungos e contribua para o conhecimento coletivo.
Exemplo de projeto DIY: um usuário do Reddit compartilha sua versão caseira de um dispositivo de música para plantas e fungos, construído com uma placa Arduino.

Software e mapeamento criativo

Depois que o Arduino capta as flutuações de condutividade, o próximo passo é enviar esses dados para um ambiente de programação. É aqui que a cultura hacker musical entra em ação, utilizando softwares de código aberto e programação visual, como PureData (Pd) ou Max/MSP. Essas ferramentas permitem que o artista:

  • Personalize o mapeamento: Determine exatamente qual parâmetro do fungo controla qual parâmetro do som (por exemplo, um pico rápido de voltagem pode acionar um bumbo, enquanto uma mudança lenta modula o tom ou a reverberação).
  • Experimente livremente: Liberte-se das configurações de fábrica e explore a criação sonora além dos presets.

Essa acessibilidade técnica foi fundamental para transformar a música fúngica de uma curiosidade de nicho em um movimento artístico global de DIY.

Possibilidades e alcance: além da curiosidade

Implicações ambientais e educativas

Para muitos artistas, o valor dessa prática vai muito além do espetáculo sonoro. A biossonificação fúngica tornou-se uma forma de reconectar-se com a natureza, de lembrar que o micélio está vivo, ativo e parte de uma linguagem biológica que apenas começamos a compreender.

Em oficinas e exposições, a música dos cogumelos é usada como ferramenta pedagógica para explicar o papel crucial dos fungos nos ecossistemas, sua função na reciclagem de nutrientes e sua rede invisível de comunicação subterrânea. Ouvir um cogumelo “tocar” torna-se uma metáfora auditiva dessa vida subterrânea.

Estudos e aplicações científicas

No campo científico, alguns pesquisadores exploram como o som e as vibrações influenciam o crescimento dos fungos. Experimentos com espécies como Trichoderma harzianum sugerem que certas frequências podem estimular a produção de esporos ou enzimas.

Por outro lado, a biossonificação oferece um método potencial para estudar a comunicação bioelétrica dentro do micélio, abrindo a possibilidade de mapear como as colônias respondem a estímulos externos como luz, umidade ou toque.

Debate e ceticismo: arte ou ruído?

A crítica científica

Nem todos estão convencidos. Muitos cientistas afirmam que as flutuações bioelétricas dos cogumelos são lentas ou fracas demais para gerar melodias complexas. O que ouvimos — dizem — pode ser, em parte, ruído elétrico amplificado ou interferência ambiental.

Mesmo assim, os artistas defendem que o valor do processo não está em sua pureza científica, mas no mapeamento criativo desses dados em escalas musicais. O que a ciência chama de “ruído”, a arte transforma em ritmo, textura e emoção.

Autenticidade artística e filosófica

Existe também um debate mais filosófico: o fungo é o compositor ou apenas um controlador biológico dentro de um instrumento humano? Onde começa e onde termina a autoria?

Essa questão ressoa com as teorias da ecologia profunda e do pós-humanismo sonoro. Inspirados por pensadores como Donna Haraway, o valor dessa música está em descentralizar a autoria humana, reconhecendo o fungo como cocriador orgânico. É um exercício de escuta radical que desafia nossas hierarquias musicais e biológicas, sugerindo que a inteligência não se limita ao humano.

Um experimento sonoro com três cogumelos e um teclado MIDI. Suas flutuações elétricas são traduzidas em melodias e palavras que revelam como “se comunicam”.

Mais do que uma moda viral, a biossonificação fúngica é um gesto de escuta. Em uma era saturada de ruído digital, transformar a eletricidade de um cogumelo em música nos devolve algo essencial: a consciência de que o vivo tem ritmo, que a biologia pulsa e que entre as raízes da floresta também se esconde uma melodia.

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